| OB-00378 - Ergate |
| Autor: |
José Heitor da Silva (artesão) |
| Descrição física: | Escultura em madeira (vinhático) |
| Dimensões: | 104cm (altura) x 62cm (largura) |
| Local de produção: | Além Paraíba, Minas Gerais, Sudeste |
| Comercialização: | "(...) inquieto com seu isolamento numa cidade do interior do Brasil, decidiu ir para a estrada em busca de novos compradores e dos 'críticos'. (...) Sem ceder às pressões do mercado para que fizesse peças menores e mais acessíveis, preferiu seguir o plano de espalhar suas obras por toda região. Quando fala sobre a comercialização de suas peças, fica dividido: 'Eu não penso assim: vou fazer uma peça pra ganhar tanto. Eu acabo vendendo. Vender uma escultura é como um pai vender um filho, fica aquela frustração. Aí eu digo: - Não vou vender, não". (pg. 21 e 22)
"José Heitor faz Cristos para as igrejas e capelas da região e restaura imagens e castiçais a pedido dos padres e zeladores" (pg. 15) |
| Materiais: | Madeira |
| Técnicas: | Escultura |
| Premiações/exposições: | "'Agora temos o Funcap - Fundação Cultural Além Paraíba -, temos o Cefec - Centro Ferroviário de Cultura. Mas naquela época não tinha nada disso. Existia apenas um cinema. Eu fiz uma exposição no hall do cinema e só isso'. Além disso, teve um trabalho selecionado no Salão Esso de Artistas Jovens (...)". (pg. 8)
"José Heitor recorda-se de que na ocasião decidira aproveitar horas vagas após o jantar, sábados, domingos e feriados, para passar o tempo no restaurante, levando sempre algumas de suas esculturas, porque tinha uma idéia na cabeça. Queria mostrar seu trabalho para alguém de fora da cidade de Além Paraíba. (...) seu interesse principal era divulgá-las: 'Eu tive que ir pro Contril para encontrar alguém que entendesse de arte". (pg. 8)
"Foi Abdias, narra José Heitor, que o levou ao Rio de Janeiro, para participar do I Salão de Artes Negras, no Museu da Imagem e do Som, promovido pelo Teatro Experimental do Negro. No Salão expôs a obra 'Simpatia carrancuda', que teria antes disso desfilado num carro alegórico da escola de samba Vem Amor, de Além Paraíba". (pg. 9) |
| Contexto socioeconômico: | "Nascido em 14 de novembro de 1937 na cidade de Além Paraíba, filho de ferreiro empregado da então Estrada de Ferro Leopoldina, José Heitor da Silva foi alfabetizado por uma professora particular, em sua casa. Em seguida, concluiu o curso primário no Grupo Escolar Alfredo Castelo Branco. Começou a trabalhar cedo, como cobrador de uma empresa de ônibus da cidade. Depois foi cobrador do Asilo de Cegos de Santa Rosa e da Fábrica de Doces Gaúcho, ambos na cidade de Niterói (RJ). Em fins de 1951, aos quatorze anos de idade, retornou a Além Paraíba onde passou pelas oficinas da Leopoldina, onde se habilitou como mecânico de freios e ar comprimido para locomotivas e carros de passageiros. Trabalhou na Rede Ferroviária (...) até 1983, quando se aposentou. Em 1964, casou-se com Nádia Pereira a Silva, com quem tem quatro filhos". (pg. 10 e 11) |
| Contexto cultural: | "Em certa medida, José Heitor conta a história de sua cidade em seu ofício de escultor: na seleção de alguns de seus temas e na própria procedência da matéria-prima. Algumas de suas obras estão intimamente ligadas à vida local. É o caso de 'Carijó', em vinhático, em tamanho natural, esculpida por ocasião do centenário da cidade, em 1983. Carijó (seu nome de batismo, desconhecido por quase todos os habitantes, era Adelaide) errava pelas ruas de além Paraíba e era alvo de provocações e xingamentos; um rito que se iniciava toda vez que gritavam seu nome enquanto fazia o seu percurso. Mas nem tudo era provocação. De alguns moradores, recebia peças de vestuário e a indefectível sombrinha que a acompanhava. José Heitor imortalizou essa personagem limiar na cidade que terminou seus dias solitária num asilo. O artista também retrata aspectos da tradição, como na escultura 'Pau-de-sebo', brincadeira infantil dos festejos juninos. Em 'Mundo cão', expressa o abandono, o desamparo dos que se entregam inteiramente à bebida". (pg. 18 e 20) |
| Contexto ambiental: | "Em relação à procedência da matéria-prima, percebem-se algumas singularidades. Na madeira por ele usada, estão presentes as transformações na paisagem urbana (...). A escultura, além de sua dimensão propriamente estética, é o remanescente de uma área da cidade que cedera lugar aos carros; também pode ser o emblema do conflito que se travara em torno da derrubada de uma árvore especial para os moradores. (...). Ao falar de seu trabalho, ressalta a origem dos blocos de madeira que viraram esculturas e reitera que não os adquire em transações comerciais. Chegou a pedir madeira nas fazendas da região. Dessa forma, pelo elemento essencial para seu trabalho, inicia um circuito de trocas onde o que está em jogo não é o valor de mercado da madeira, pois ela aqui é um objeto simbólico e tem valor afetivo, para quem presenteia e para o escultor". (pg. 20 e 21) |
| Notas: | Fonte:
TRAVASSOS, Elisabeth e WALDECK, Guacira. Escrevendo na madeira: esculturas de José Heitor. Rio de Janeiro: FUNARTE/CNFCP, 1996. |