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ENTREVISTA - RENATO IMBROISI (18/6/2008)
“A aliança é fundamental”
Renato Imbroisi é designer, tecelão e empreendedor carioca, e com o Sebrae faz projetos com artesãos por todo o país.
Como
você avalia a situação do artesanato no país e sua relação com o design?
De 12
a 15 anos pra cá, o Sebrae e outras instituições
iniciaram programas de grande aproximação do design com o artesanato. Por todo
o Brasil, já se fizeram muitas ações nesse sentido, mas só o design não é a
solução para o artesanato. A solução está muito mais em sanar problemas de gestão
e organização das pessoas que produzem, das comunidades e dos artesãos
individuais, do que no papel do designer no desenho. Claro que em certos casos a
situação melhorou muito, acharam-se caminhos que não existiam. Em alguns
lugares, com a entrada do design, estimulou-se muito mais o produzir do
artesanato e de fazeres manuais, e se conceituaram determinados grupos ou foram
descobertos caminho para eles. Criou-se um grande boom de pessoas querendo apoiar, estimular e trabalhar com o
artesanato, mas é preciso solucionar esse problema maior de gestão. Não se
absorve a quantidade de grupos que estão produzindo no mercado nacional, que
está inchado, e, para atingir o mercado internacional, eles precisam se
organizar muito mais. Nas comunidades mais próximas, se der algum problema,
acaba-se consertando, a coisa fica um pouco mais fácil de solucionar. Imagine
isso lá fora. Só de transportar, voltar e reorganizar tudo, queima-se a
possibilidade de acerto.
Hoje, o maior problema é a organização e a gestão
dos grupos. Estão surgindo vários designers que não trabalhavam com o
artesanato e que estão entrando nessa área, fazendo coisas muito interessantes
– novos designers, jovens ainda na universidade –, mas se conta nos dedos quem
consegue sobreviver efetivamente só com o trabalho dessa produção. E quando
isso acontece é mais nas grandes capitais como Rio de Janeiro, São Paulo, Porto
Alegre, Belo Horizonte, porque no interior e, principalmente para quem já vivia
disso dentro das suas condições, os problemas continuam.
Há um
projeto desenvolvido em
Santa Maria que, de acordo com você, não vingou por falta de
liderança local. Falta organização nas comunidades para se dedicar ao
artesanato? As comunidades valorizam a produção artesanal?
Fiz vários projetos em Santa Maria. Dois
deles estão de pé, realmente sobrevivendo, e viraram referência para o Distrito
Federal e para o país, assim como para os Sebraes de diversos Estados, que viram
aquilo não só como um produto que deu muito certo, mas também como um produto
que puxou o grupo em que já existia uma grande liderança. Mas depois começaram
a surgir novos grupos concorrentes, com produtos de melhor qualidade. O preço era
exatamente igual. Com isso, aquelas artesãs foram perdendo força no mercado.
Elas tinham um grande comprador, que deixou a comunidade e partiu para outra
que fazia um produto similar.
Quando o Sebrae me contratou para desenvolver
linhas diferentes na região de Santa Maria, vários grupos faziam pano de prato
com linhas diversas. Conhecendo todos eles e vendo que um está perdendo força e
qualidade, o cliente parte para outro. Ganha quem tem mais qualidade,
organização, e preço. Acho difícil manter essa chama acesa desde o começo, por
isto falei que faz muita falta essa organização e esse controle de qualidade,
de gestão. Vejo isso em muitos casos.
Ali, o problema não era o produto, que era muito
bom no mercado nacional e internacional – as artesãs estavam comercializando o
grosso da sua produção no mercado internacional. Faltou qualidade e
organização, foi exatamente esse o problema. Aí um outro grupo prevaleceu e
está empregando. Não é uma questão de falta de valorização do artesanato. Pelo
contrário, ali as artesãs valorizam muito, entendem, estão muito ligadas. Estão
sempre no mercado, participam de 10 feiras nacionais anuais: Curitiba, Rio
Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo, Belo Horizonte, Recife, Alagoas, Mato
Grosso. Elas circulam mesmo, são muito empreendedoras. A falha foi no controle
de qualidade e na organização empresarial, a estruturação da contabilidade
financeira.
É
importante preparar as artesãs para o mercado? A formalização, a formação de
associações, cooperativas ou pequenas empresas, deve ser incentivada?
Acho importante. O Sebrae dá esse suporte e investe
nisso. Há consultores – o Balcão Sebrae – em todo o país. Mas, às vezes, a
forma como isso é apresentado deixa dúvidas na cabeça das artesãs. Existe um
estímulo muito grande para se formarem associações e cooperativas, mas a
maioria dos grupos não tem esse perfil. O perfil é de pequenas empresárias ou
de grupos de produção. Precisa-se, primeiro, ter muito bom conhecimento das
pessoas que estão se juntando para trabalhar, e de qual vai ser a sua forma de
trabalho. Escolhendo essa forma, aprendendo muito bem a escolher aonde se quer
ir, então sim, deve-se formalizar, seja em associação, cooperativa, ou pequena
empresa. Por onde vou, há vários exemplos de cooperativas que deram certo, que
começaram como grupos de produção. Mas também há vários exemplos de pequenas
empresárias agenciando grupos. E há ainda muito mais grupos na informalidade,
mas neste caso não adianta, porque para eles chegarem a se formalizar, têm que
passar por um período de experiência e saber, na prática, aonde querem chegar,
qual o seu caminho. Acontece muito de montarem associações, pequenas empresas,
mas elas não duram nem um ano. Portanto, é melhor trabalhar conhecendo o perfil,
para seguir o caminho mais correto.
Em
alguns casos, as artesãs aumentaram tanto a produção que tiveram que terceirizar
a mão-de-obra. Como você avalia essa questão?
Acho ótimo. Se elas têm como terceirizar e dar
emprego para outras pessoas, acho que é isto que o país está precisando: gerar
renda. Mas tudo depende de como é realizado. Por exemplo, existem grupos que
terceirizam parte da produção quando a demanda é muito maior do que conseguem
produzir – ou seja, eles não mantêm a produção constante, mantêm a produção do
núcleo e, em momentos esporádicos, terceirizam o que excede. Não tenho nada
contra. O que não acho justo é o grupo montar uma associação, colocar isso no
papel como uma forma de cooperativismo, enquanto que, na prática, algumas
lideram, buscam mercado para elas, e repassam o dinheiro para as outras numa
proporção muito menor, para continuarem no controle. O produto “X”, que vale R$10
e tem mão-de-obra de R$5, é repassado para uma terceira com mão-de-obra de R$2
ou R$3, porque há uma artesã que controla e detém parte do processo. Se isso é
esclarecido, acho que não tem problema. O único problema é deixar as coisas
obscuras, a comunidade se apresentar como uma associação quando, na verdade, o
regime não é este, não é uma coisa transparente. Isso é o que acho ruim.
Objetos de
capim dourado – material com o qual você trabalhou – tiveram, por muito tempo,
uma produção restrita, constituindo, até mesmo, objetos de luxo. Agora se
popularizaram e, atualmente, encontramos objetos de capim dourado em muitas
barraquinhas de camelôs. Como você enxerga e avalia o caso dessa matéria-prima?
No caso do capim dourado, considero muito ruim. É
bom quando o produto consegue atingir essas várias camadas sociais e, ao mesmo
tempo, manter o valor, como foi o caso dos produtos de Santa Maria. Isso é
muito raro de conseguir. Mas o capim dourado é uma matéria-prima preocupante.
Sua extração faz parte de um processo muito perigoso dentro do ecossistema, da
manutenção da flora local, de todo o aspecto de preservação do meio ambiente.
Fui o designer que atuou lá em 1998 – há muito
tempo. Fiquei de 1998 a
2001 e deixei de ir nesses últimos sete anos. Na época, a realidade era outra,
uma atividade ainda controlada, num mercado que tinha bom preço, que valorizava
toda essa história. Não sei dizer hoje em dia, mas depois que o produto ficou
mais popular, estimulou-se a produção e, como aquilo virou uma fonte de renda relativamente
fácil, se espalhou muito rápido. É como o ouro. Na Serra Pelada, achou-se ouro
e, pouco tempo depois, ele se esgotou. Ali se achou o capim dourado e logo
aquilo vai acabar. É o uso desgovernado de uma matéria-prima, sem nenhum
controle. Isso, a meu ver, vem acontecendo nesses sete anos, mas não sei o que
estão fazendo agora para preservar, controlar e organizar aquele meio ambiente.
Na época, a preocupação já era grande, porque o capim dá uma vez por ano, só
brota depois da queima. Acredito que seria preciso preservar as comunidades
onde aquilo nasceu.
A produção do capim dourado foi estimulada em
vários outros pontos do Tocantins, mas, por outro lado, ele acabou sendo
banalizado, porque surgiram vários desenhos que o deixaram um pouco popular demais.
Não tenho nada contra um produto que atinja várias camadas sociais, mas o capim
dourado perdeu o brilho com os materiais que se agregaram e ele. Por exemplo,
quando fui trabalhar com outro grupo, o Flores do Cerrado, em Brasília, a
matéria-prima natural dali era, por excelência, rica, nobre, espetacular – como
é o caso do capim. Mas pelo fato de terem sido colocados produtos em cima dela
– como tintas erradas e purpurina –, aquela matéria foi se camuflando e
sumindo. No capim dourado, isso atrapalhou muito. Na época em que fiz o
trabalho, era só o capim dourado, só a matéria-prima com formas que o
valorizavam.
Você
usa matérias-primas regionais, materiais reciclados, restos de outros
materiais. Como é possível aliar estética, tradição, inclusão social e
desenvolvimento sustentável na produção de objetos?
Conto nos dedos os projetos em que
trabalhei em que isso é muito claro e bem organizado. Existem grupos no Sul,
onde trabalhei por muitos anos, que trabalham com a matéria-prima local – no
caso, a lã pura. Essa lã se transformou em produtos que atingiram várias
camadas sociais e, num país quente, conseguiram furar a barreira e vender em
mercados onde nunca se imaginaria, como o Nordeste. Esses grupos se mantêm
muito fortes como uma cooperativa, muito bem organizados. O grosso da
comunidade sobrevive desse trabalho – não tem outra fonte de renda, não existia
outro trabalho na região – e é uma matéria-prima nobre, da região, que não
agride o meio-ambiente, porque a lã tem uma tosquia por ano. Ali está tudo
muito integrado, é um projeto de sucesso. Tenho outros exemplos, mas em que a
matéria-prima não é a força total. Grupos de reciclagem, como no Distrito
Federal, grupos que vêm atuando e comercializando também com essa
transparência. Grupos fazendo crochê com tampinhas de Coca-Cola. Eles vendem
muito mais para o mercado externo e vivem disso. Mas são casos diferente do Sul
porque para eles a matéria-prima é de resíduo urbano.
Você
trabalha bastante com o artesanato como atividade cultural, com o trabalho
incorporado à vida da comunidade. Qual a importância de manter essa conexão
entre o trabalho e a estrutura orgânica da vida da comunidade? Nesse aspecto,
há diferenças entre trabalhar com comunidades rurais mais isoladas e
comunidades urbanas?
Comecei na área rural. Consegui
desenvolver meu trabalho e organizar minha vida e minha história na área rural
durante esses 22 anos em que trabalho no interior de Minas Gerais. E fiz isso
em várias regiões do Brasil. Na área urbana, o local onde tive maior sucesso e
experiência foi o Distrito Federal. É onde tenho maior intimidade, trabalho com
25 comunidades. Como em tudo, temos que ter um foco de mercado, de conceito, de
ideais, de pesquisa e de criação, e é isso o que tento buscar em cada uma
delas. Dirigi vários grupos até achar este caminho. Qual o caminho desse grupo?Por
que elas se juntaram?Qual o
conceito?Onde elas querem chegar?Qual o mercado delas? Porque, às
vezes, o mercado nem é tão amplo como imaginamos – que vá vender em Nova Iorque ou Londres
–, vai vender ali ao lado mesmo, na própria região delas. Como achar esse
produto, esse conceito, e fazer isso brilhar? Para isso, tenho que mergulhar
profundamente na vida delas, saber o que querem da vida, o que querem com aquele
trabalho, o que as satisfaz, o que as motivou, qual o fio condutor que faz uma
ter a ver com a outra dentro de um grupo. Não vejo outra maneira de dar certo
senão com todas trabalhando com o mesmo objetivo, o mesmo prazer, a mesma garra
e o mesmo conforto. Esses exemplos que citei deram certo por este motivo,
porque resultou em uma atividade muito verdadeira. Além do mais, quando a
pessoa faz e acredita no produto, ela usa o que faz, incorpora aquilo, tem
prazer em dá-lo de presente, em se vestir com aquilo, em decorar a casa com o
que faz. Quando isso aparece, é porque a coisa está começando a funcionar.
Você
tem falado sempre no feminino (“elas”, “as artesãs”, “as mulheres”). Há maior
presença feminina no artesanato? Você costuma trabalhar mais com artesãs do que
com artesãos? Quais as diferenças entre trabalhar com um ou outro público?
O grosso são mulheres mesmo. Como eu
trabalho muito mais com o têxtil – e comecei sendo o próprio artesão –, essa
área, de uma forma ou de outra, tem muito mais mulheres. Por isto meu trabalho
tem um público mais feminino. Se eu estivesse atuando mais com marcenaria,
talvez tivesse um público mais masculino. Mas, em muitos casos, tenho grupos
masculinos. Na África mesmo, a maioria dos grupos são masculinos. Trabalho com
um grupo de escultores de madeira que é 100% masculino. E são idênticas as
preocupações e necessidades. Tudo o que falei vale tanto para um como para
outro. Não sei dizer exatamente qual o percentual geral no país, se é mais
feminino ou masculino, mas é até interessante saber nos cadastros, se existe
uma pesquisa em relação a isso, acredito que sim.
Qual
o papel do design num país de forte tradição artesanal?
Como eu venho de uma formação
autodidata, tendo sido artesão, e de artesão me tornando designer, de designer
me tornando consultor, e de consultor me tornando diretor, acho que o papel do
design está muito ligado à pesquisa de mercado. Porque na hora em que o
designer vai desenhar e criar o produto, ele tem que entender que mercado ele
vai atingir, de que forma esse mercado vai ser atingido e como essa comunidade
vai compreender e acreditar naquele desenho. Não conheço outra forma a não ser
assim.
Tudo o que consegui de bons resultados,
é porque eu sabia exatamente o foco de mercado, a maneira como o produto devia
ser apresentado, o conceito. E, principalmente, porque passei isto com muita
segurança para as artesãs. Essa segurança foi possível porque eu sentia que,
nos grupos, o caminho que foi definido para cada uma delas era aquele. E quando
elas entram nessa linha de pesquisa – de inovação, de organização, de
qualidade, de um foco de mercado –, também começam a obter melhores resultados.
Na maioria das comunidades em que vou,
as mulheres fazem um pouco de cada coisa, e com isso o produto não aparece. Não
se tem uma perseverança de fazer um mesmo produto para que ele possa evoluir,
melhorar, crescer e ser explorado até os seus limites, a partir da pesquisa de
materiais, de qualidade, de técnicas.
Como
fazer uma boa aliança entre designers e artesãos?
Essa é a aliança que acho fundamental.
Um grande respeito e confiança mútua. Tem que haver uma excelente integração para
que as coisas funcionem. Mas para isto acontecer não existe uma regrinha. Acho
que comigo deu muito certo em alguns casos porque falo a mesma linguagem que elas,
tenho as mesmas necessidades. Sei quais são os problemas que elas poderão
enfrentar pelo desenho, pela qualidade do produto, pela organização, pela forma
como vão atingir seu mercado. Converso bastante e elas sentem muita confiança. Esta
é a maneira de abordar o artesão. É preciso domínio quando se tem 20, 30
pessoas, ou até muito mais, às vezes trabalho com 100 pessoas. Como manter
aquela chama acesa o tempo inteiro? Isso faz parte da direção, que acabo exercendo
muito mais do que me dedicando à criação do produto.
Em todos os projetos, sempre crio alguma
parcela, mas hoje, em muitos deles, já não crio a coleção inteira. Quando o
grupo é enorme, tenho vários designers trabalhando e pensando comigo. A
confiança também é importante. Na minha trajetória, vivi na prática o que é
produzir, comercializar, ter produto de qualidade, ter que inovar dentro de
determinado prazo e estar o tempo todo no mercado. Como eu era o próprio
tecelão, tinha que produzir, descobrir o meu mercado e descobrir como vender
aquilo. Como foi assim que sobrevivi, consigo entender e explicar para elas
como chegar lá. Você fez um produto de excelente qualidade e não conseguiu
vender. Por quê? Porque não estava sendo exposto da maneira correta? Porque não
estava sendo vendido para o público correto? Como chegar lá? Como furar essa
barreira? Às vezes não vendeu na primeira ou na segunda feira porque o preço
estava errado, ou porque o produto não era para aquele público. Se a pessoa estiver
segura a respeito daquele material, tem que ir a fundo, até o fim, abaixar o
preço para atingir aquele mercado, aumentar a produtividade, melhorar a
qualidade, mudar a cor. É preciso fazer um estudo, e, às vezes, a coisa tem que
ser muito rápida, imediata.
Até
que ponto o designer pode intervir no trabalho dos artesãos? Como saber quando,
em que e de que maneira intervir?
Os artesãos dão algumas dicas, mas na
maioria das vezes, não é o artesão que pede para o designer falar. São raras as
vezes em que se veem grupos com suporte financeiro para contratar um designer.
Agora, três comunidades vão me pagar para que eu desenvolva os trabalhos. As
comunidades vão pagar um percentual, e a instituição, outro.
São poucas as comunidades que têm essa
fome, essa sede, de considerar o papel do designer importante. E na própria
comunidade não há pessoas com a percepção, com o aprendizado, ou criativas o
suficiente para inovar o tempo todo. Mas há casos em que a comunidade absorveu
muito bem o papel e o conceito, como é a Lã Pura, no Sul. O grupo é composto
por mais de 30 pessoas, mas duas das mulheres estão mais atentas ao processo de
criação e ao conceito, elas entenderam muito bem a base. Na última participação
na feira, elas fizeram por conta própria todas as inovações de desenho, as
variantes dos caminhos. Se você vem com uma coleção de 30 peças com variantes
de cor, elas lhe apresentam mais 30, porque em cima daquilo, ampliaram o olhar
na mesma direção, ou até em direções complementares.
Cabe ao designer o papel de expandir o
olhar, mas seu papel fundamental é o de fazer um bom produto. Como ele vai
realizar isto depende de toda uma infra-estrutura, a estrutura física e a
humana. Como essa estrutura vai entender? Ela está aberta para isso? Tem
vontade, capacidade? Tenho um exemplo do Maranhão, onde fui a uma comunidade
apresentar 30 produtos e fiz mais de 60, porque a comunidade foi me pedindo. Eu
perguntava: “Tem mais alguma novidade?”, e elas me respondiam imediatamente. Eu
dizia: “Acho que vocês podem chegar nisso, vamos abrir para uma outra parte da
coleção?”. E elas atendiam. Fiquei 10 dias e, se tivesse ficado 20, teria mais
variantes de produtos, porque elas me respondiam rápido, não só na produção,
mas também na qualidade e na vontade, porque sabem que o mercado está atento a
novidades, quer qualidade, bom desenho, então aproveitaram ao máximo.
Em
seus trabalhos, pode-se dizer que há uma troca, ou seja, que você acrescenta
algo ao trabalho dos artesãos, mas que também os artesãos acrescentam algo ao
seu trabalho? É possível incentivar não só o design a ir até os artesãos, mas
também promover uma valorização tal que possibilite o contrário? Você já fez
trabalhos pessoais e com comunidades. Como você distingue o que é trabalho
pessoal e o que é trabalho atribuído às comunidades?
A troca existe o tempo inteiro. Quando
a coisa é só de um lado, fica pobre, não fica bom. Fica difícil até de lidar,
você acaba cuidando demais e o artesão fica sem estímulo, você não consegue produzir,
porque depende das mãos deles – não só das mãos, mas da vontade. É uma troca
contínua, o que falei sobre entrar na intimidade e ser um pouco cúmplice. Essa
cumplicidade com o outro é o que faz funcionar. Respeito demais o produto que
desenvolvo para qualquer comunidade, tanto é que, cada vez mais, tenho
investido mais nas consultorias e na direção do que na minha própria marca como
produto.
Minha marca se mantém no interior de
Minas Gerais, onde estamos nos dedicando mais a brindes. Não levo o que fiz
como consultor para minha marca pessoal, nem faço a mesma coisa em duas ou mais
comunidades, não uso o mesmo conceito. Preservo demais e enfatizo que temos que
achar nossas identidades, nossas raízes, nossos ideais, nossa linha de conduta.
E as artesãs buscam o designer, sim. Nesses últimos 10, 12 anos, fala-se muito
no Brasil, através das instituições, da mídia, em debates e conferências, que o
design soluciona tais problemas. As artesãs estão atentas, sabem o que é isso.
No começo se falava em design e ninguém sabia o que era. Em parte, isto
persiste, mas algumas artesãs já estão muito espertas, percebem a diferença, e
pedem a presença do designer.
Você
viajou o Brasil inteiro, conheceu artesãos em vários lugares, e diz que tentava
fazer com que eles trocassem experiências entre si. Como você avalia esses
diálogos? Que projetos surgiram a partir dessas trocas?
Isso aconteceu várias vezes. De oito
anos pra cá, cada vez mais, tenho feito essa mescla de levar artesãos das
comunidades de sucesso para outras que estão começando a achar seu caminho.
Isso não só no Brasil, mas também em Moçambique, na Itália, ou até no Japão.
Fiz esses intercâmbios de saberes. E as pessoas recebem muito bem, porque falam
a mesma linguagem, têm as mesmas necessidades. E, principalmente, tenho feito
isso para encurtar caminhos, porque se levo uma pessoa que passou por todas as
dificuldades e ela explica para a outra como chegou ali, diminui certos
atritos.