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MF-01132 - Figurino de trajes carnavalescos do GRBC Império de Botafogo - 1983 - Réquiem a João do Rio

Crédito da Fotografia:
Autor: Francisco da Costa
Data:27/06/2005
OB-00428 - Figurino de trajes carnavalescos do GRBC Império do Botafogo - 1983 -
Autor: César Francisco (artesão)
Local de produção:Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Sudeste
Materiais:"São locais onde, com esmalte sintético e tinta a óleo, Cesar deixa registrada sua criatividade". (pg. 5)
Técnicas:Pintura
Descrição do processo técnico:"Seu trabalho de figurinista começa por volta de setembro, quando a Diretoria do bloco escolhe o tema para enredo do desfile. Cesar, então dá início a pesquisas em bibliotecas e museus, buscando subsídios para a idealização dos elementos que irá utilizar em fantasias, alegorias e carros alegóricos. Quando tem formada a visão de todo o conjunto, inicia os desenhos dos figurinos, cerca de oitenta, que, distribuídos por alas de desfile, são encaminhados às costureiras para confecção, trabalho este que o figurinista acompanha, desde a compra de tecido até a colocação de apliques e detalhes". (pg. 6)
"Algumas fantasias, de certo modo, independem do enredo do desfile, como porta-estandarte, porta-bandeira, mestre-sala, baianas; no entanto, todo ano, é necessário criar fantasias novas, pois como afirma Cesar: "Ano Novo - Roupa Nova", não aceitando que as pessoas desfilem com roupas do ano anterior". (pg. 6)
"Carnavalesco, além de trabalhar como figurinista para o bloco, Cesar compõe sambas-enredo que descreve como sendo "uma coisa diferente, porque não  é uma coisa ilustrada, mas sim escrita" e que, de certa forma, impõe limites à sua criação:
"Esse negócio de samba-enredo, o tema já está ali, você não está criando o tema, você está desenvolvendo o tema". (pg. 6)
Contexto socioeconômico:

"Ainda em sua terra, dedicou-se a pintura, serigrafia, música e teatro, atividades que abandonou aos 20 anos, ao mudar-se para o Rio de Janeiro, onde tem se dedicado à profissão de figurinista". (pg. 3)

Cesar Siry

Cesar Francisco ou Cesar Siry - como foi apelidado em  menino, no Morro de Santa Marta, assim como outros de sua geração receberam também apelidos: Paulo Tartaruga, Paulo Sapo, o Frango, Zé Galinha, etc.- é artista conhecido na comunidade por seus desenhos, cartazes e tabelas de produtos para bares, colégios, biroscas, centros religiosos e quadras de samba, além do trabalho de criação de sambas, alegorias e figurinos para escolas e blocos carnavalescos". (pg.5)

Contexto cultural:

"Sua arte surgiu ainda na infância, como afirma, referindo-se à pintura mural que executa por todo o morro:
"Esse tipo de pintura vem comigo desde que eu era criança. Quando tinha seis para sete anos, subia o morro rabiscando os muros. Então as pessoas gostavam. Um birosqueiro chegava para mim e dizia: - Puxa Siryzinho, você não queria pintar o meu bar? Você podia escrever o nome da minha birosca? - E assim eu fui indo. Mas sempre que eu escrevia o nome, fazia o desenho de algum produto, no caso uam garrafa de cana, uma fruta. Sempre fazia o rosto de alguém do morro. Às vezes, fazia o rosto do próprio dono.. E assim foi indo, e até mesmo o pessoal de igreja, os crentes, os macumbeiros, todos me pediam e até hoje me pedem pra desenhar"". (pg. 5)
"O trabalho de Cesar como figurinista do bloco carnavalesco Império de Botafogo é decorrência de sua arte e do envolvimento maior que tem com a comunidade à qual pertence. Como demonstra sempre, Santa Marta não é para Cesar apenas o local onde mora. É seu berço. É lá que estão suas raízes, seu grupo de referência, sua família (César é casado e tem seis filhos), e onde ele atua com perfeita consciência de seu papel de agente social daquela comunidade". (pg. 6)
"Pintor de murais e cartazes, desenhista, sambista e carnavalesco, figurinista, construtor de alegorias e carros alegóricos, autodidata, agente comunitário, desenhista de publicidade e chefe de família. Tudo isso é Cesar Siry e ainda mais. Revela-se como cronista, repórter e etnógrafo de seu próprio meio, conforme o texto a seguir, escrito em 1981". (pg. 6) (Ricardo Gomes Lima)

Depoimento de Cesar Siry
"A favela Santa Marta, no bairro Botafogo, Rio de Janeiro, como todas as favelas, também tem seus fatos marcantes, alegres, tristes, folclóricos e religiosos, mas com um significado importantíssimo para cada um dos que ali vivem.
Eu por exemplo: nasci e sempre morei ali. Quando ainda criança, recordo hoje da luta que tínhamos, da falta de luz elétrica e das buscas de água potável pelas ruas da redondeza, pois as duas nascentes que temos não abasteciam nem 15% da comunidade. E la íamos nós! Mulheres e crianças da latas e latinhas nas mãos, minha mãe, meus irmãos e eu com meus cinco anos de idade.
Pela manhã, eu dava duas viagens, pois logo em seguida mamãe me dava um rápido banho, eu engolia a comida, me vestia, o único uniforme  que tinha, o qual era lavado todas as noites e, às vezes, pela manhã, era secado a ferro, e lá ia eu! pro jardim da infância, na Rua Sorocaba. No caminho, encontrava outros colegas que também comigo estudavam e juntos íamos". (pg. 7)
Lá aprendíamos a colorir figuras, desenhar, cobrir números e letras, adquirindo assim, os primeiros contatos com o alfabeto. No recreio era legal, aprendíamos músicas folclóricas, hinos simbólicos e música de roda. O tempo passou e a luta continuava, mas com algumas melhoras. Veio luz elétrica e assistência social pra favela. Em 1960, nossa favela passou a receber água encanada dividindo-se em bicas por vários lotes da favela, organizada pelo Padre Hélio e outros. Foi maravilhoso o construir da caixa d'água no alto da favela, aos pés da capela que tem o nome da padroeira Santa Marta. Todos queriam ajudar, crianças adultos e idosos. Até eu cooperei, carregando de um a um, trouxe uns dez tijolos.
Atualmente todos os becos da favela têm nome, e todos com suas razões por terem. A subida principal é Rua Padre Hélio devido a seus maravilhosos feitos na comunidade. Outros, por motivos folclóricos ou irônicos, como: Beco do Pecado, do Sossego, da Coruja, do Jabuti, do Pocinho, da Mina, Rua da Assembléia, do Roial, do Noturno, da Macumba, etc... Existem também pontos de referência como: Cidade Nova, Pedra de Xangô, Mina de Baixo, e de Cima.
O beco onde moro é o Beco dos Crioulos, pois com a minha, mora outra família também grande e todos nós somos de cor  negra. E mediante a tantos entra-e-sai de "crioulos", nosso bequinho assim foi batizado.
Como o tempo nunca descansa, eu fui crescendo com meus oito irmãos, todos estudando e procurando arcar com os conselhos paternos e até mesmo com os exemplos favoráveis que sucedem não só ali, mas em todos os locais.
Sempre me preocupei com a imagem cultural e social da minha favela, o meu berço. Como sempre, gostei de desenhar e hoje sou desenhista, faço decorações das biroscas, com letreiros e desenhos anunciando seus produtos. Desenho também cartazes de orientações médicas e sociais para órgãos do Estado que lá se instalam em benefício da comunidade. Também colaboro com o G.R.B.C. Império de Botafogo, uma das atrações que temos na favela, com dois campeonatos e um vice.
De setembro a fevereiro, na favela, o samba predomina e enobrece os humildes moradores, que após dias no batente têm ali, aos sábados e domingos, nos ensaios, motivos pra cantar, sambar e se preparar para o próximo desfile na Avenida, enquanto eu, nas horas livres, vou criando e desenhando os figurinos e alegorias. Nossos compositores, sempre bem inspirados, criam sambas tão alegres, que é fácil encontrar por vários pontos da favela alguém cantarolando um de seus sambas. Nossa quadra de samba fica no pé da favela e quase toda a comunidade vibra e participa com fervor, descendo ou não para os ensaios. Eu digo quase toda a comunidade porque lá existem os crentes religiosos das Igrejas Protestantes Assembléia de Deus, que não participam , mas nos alegram com seus cânticos e hinos, aliás, cada qual na sua, né?
Também compondo sambas, e todos são baseados no cotidiano da favela. Samba-enredo, fiz apenas dois . O primeiro, de parceria com Zé Prego, um dos gogós de ouro na nossa favela. Foi nosso samba campeão na G.R.E.S.São Clemente intitulando-se com o enredo "Sonho de um Príncipe". O segundo foi para o Bloco G.R.B.C. Alegria de Copacabana. Fiz sozinho e fui vice-campeão.
Hoje tenho 26 anos, trabalho como desenhista publicitário. Tenho cinco filhos, duas meninas e três meninos (dois gêmeos). Os gêmeos são muito parecidos e divertidos ao ponto de, às vezes, não saber distingui-los. Eles têm quatro anos e estudam no mesmo jardim da infância que estudei quando estava com a idade deles e, por sinal, com a mesma professora e com os filhos dos que lá também comigo estudaram. Quanto às meninas, a mais velha, é atenciosa e delicada, e pelo que vejo, herdou o dom de desenhar, pois sempre me mostra seus trabalhinhos e, modéstia a parte, leva jeito. A menor, com dois anos, é muito risonha e arteira. Prefere brincadeiras mais fogosas. O caçula tem sete meses, quando não está dormindo ou mamando ele mais canta do que chora, já conhece minha voz e adora minhas caretas.
Minha esposa me é atenciosa, ativa, amável e surpreendedora. Sim, porque às vezes saio de manhã pro trabalho prometendo a ela que na volta resolvo certos problemas. Quando chego, ela já resolveu. Certa vez, dei dinheiro a ela pra comprar tinta e pagar um pintor pra pintar o nosso barraco, pois se aproximava o Natal e o tempo me era pouco. Desci pro trabalho. De noite, quando cheguei, encontrei nosso barraco totalmente bem pintado, e  quem tudo fez foi ela sozinha, não pagando a ninguém; com o dinheiro poupado, reforçou os ingredientes do Natal e comprou mais presentes para as nossas crianças.
Sou muito feliz onde moro. Me são pequeninos os motivos que me obrigam a mudar, mas pode acontecer. Mas será em benefício de meus filhos e da minha família, pois eu estarei sempre acariciando com meus pés, os degraus da minha favela, com minha gente e meus amigos que, sem demagogia, sem comparações, hão de sempre me compreender, pois me conhecem de raízes, sabem de meus propósitos e do meu eterno amor pela comunidade.
"Cesar Francisco  (Siry)". (pg. 8)

" A maior influência veio desses pintores que pintam em praças, nas ruas. Eu ficava vendo eles mexerem dom aquelas cores e isso tem muito a ver comigo: cores, pincëis, etc. Então, sempre que eu via alguém pintando e achava bonito, eu me nteressava em iitar. E então, fui imitando, e foi indo, até que hoje sou um profissional". (pg. 5)


"Com o passar dos anos, o universo de Cesar foi se ampliando. Tornou-se cnhecido e hoje é requisitado para pinturas e outras áreas da cidade: Chapéu Mangueira, Cantagalo, Rocinha, etc.". (pg. 5)


"Para o artista, esse tipo de trabalaho é importante, não só por se tratar de um dos mecanismos de expressão de seus valores, de suamaneira de ver o mundo, como também por serem registros do processo de transformação de sua arte". (pg. 5)

Notas:Fonte:

LIMA, Ricardo Gomes. Cesar Siry: figurinos de carnaval; Athan minifantasias.

Bibliografia Associada:
Cesar Siry: figurinos de carnaval; Athan minifantasias

Descritores:
Eventos
Sala do Artista Popular
Cesar Siry: figurinos de carnaval e Athan: minifantasias
Eventos
Sala do Artista Popular
Sala do Artista Popular
Localização geográfica
Brasil
Sudeste
Rio de Janeiro
Rio de Janeiro
Manifestação cultural
Carnaval
Material
Papel
Papel
Organizações
Museu de Folclore Edison Carneiro
Pessoas
Nome de pessoa
César Francisco
Pessoas
Nome de pessoa
Francisco da Costa
Técnica
Desenho